5/26/2006

Que voz bonita é essa que sussurra em meu ouvido, que me ajuda a acordar para um dia que, assim, até parece envolto em magia? Que diz sobre ausência e me faz lembrar que nem sempre as noites são de risos e que tenho de aprender a não querer sempre assim, e a me aquietar quando ao redor o dia está nublado. Entender os dias nublados dos outros e não querer que tudo seja perfeito, e aceitar que teus dias não são sempre ....
Que acordes são estes que recobrem suas declarações de amor, sem jeito de querer ser,
nada,
nascendo ao meu lado, durmo em teus braços mais um sono de anjo. Nem sonhei esta noite, mas sei que tive teu calor envolvendo meu corpo e agora quando acordo quase junto com o dia guardo na boca o gosto bom de saber que tenho você
procurei um presente pra te dar ontem, mas acabo sempre achando que não sei do que gostas. Até sei, mas não sei, me entendes? Porque no fim das contas nunca entendemos nada, não é possível saber tudo ao certo e as nuvens tremem e ganham outras formas que a gente não reconhece igual.
E as palavras que saem da boca, chegam outras aos ouvidos e a gente vai levando
mesmo sabendo que 'o que você quer eu não posso dar'
e nem eu posso e também não quero, não quero querer, às vezes, e quero não querer em outras
no final, outra noite cai e sabemos que nos temos, mais do que a qualquer outra coisa no mundo. Mesmo desse jeito que as vezes parece confuso
e é por isso que não me canso de olhar pra você dormindo, quando perco o sono no escuro da madrugada; é por isso que não canso de lembrar as lindas histórias adolescentes que vivemos e me fizeram perceber o que se espalhava, mesmo que nem sempre eu quisesse, mesmo que eu muitas vezes não quisesse
por isso que adoro ainda mais a chegada da noite, mesmo as de insonia, porque daí posso te olhar nesse silêncio, lembrar as primeiras vezes que vi tua boca linda se abrir nesse sorriso que vc teima em guardar para poucos momentos.
Que voz bonita é essa que sussurra em meu ouvido essa canção tão sentida e me deixa com mais vontade ainda de viver tudo que aparecer pela frente....

Adri.

5/23/2006

5/19/2006

A próxima onda

Minha alma é uma janela de espelhos distorcidos carregados de culpa e sombras a espera de uma iluminação tentando entender até quando valerá a pena repetir os mesmos erros. Cada passo um alvo serpenteando em falso crescendo desespero até explodir em milhões de cores translúcidas. Caminhando no vazio do amanhecer elevado enquanto o céu se fantasia de oceano em direção ao infinito. A estrada íngreme e tortuosa alterada no redemoinho caleidoscópico de sons e rostos apagados no sonho esquecido do tempo. Intoxicado pelos enigmas da ambição em desertos povoados de respiração febril no limiar do crepúsculo da inconsciência percebo que viver é estar cego. A solidão da noite intemporal se estende a espreita de algum gesto de paixão e nos mergulha alegremente no caos da loucura embriagada para acordar a besta fera da ilusão animada em extase sórdido e silencioso. Tudo está calmo. Até a próxima onda. Enquanto o sono não vem, planejamos crimes delicados. Assassinatos caridosos. Genocídios sagrados. Horrores rituais. Estenda a sua mão. Não tenha medo. É apenas a vida.

5/16/2006

Histórias da vida de um rapaz em forma de belas canções

foto: Rafael Dabul

Jornal do Estado de hoje

Adriane Perin

O disco começa com um jazz bem intimista, com os primeiros acordes de trumpetes que começam bem baixinho e vão gradativamente ocupando os espaços em companhia de outros instrumentos, para já no meio da música formar um conjunto jazzístico do qual o trumpete segue sendo a estrela máxima. É quase uma vinheta, o jazz que abre o disco Insomnica, do curitibano Igor Ribeiro. O que vem depois é uma chapuletada atrás da outra em um repertório de 15 canções que foram buriladas por quase três anos. Insomnica começou a ser gerado como o segundo disco da banda Iris, uma das que Ribeiro integra. Mas, na verdade foi produzido na quase solidão completa do estúdio caseiro do músico, com participações de Rubens K, Rodrigo Lemos, Mariele Loyola e Marco Mackoy. É mesmo a viagem bem pessoal do compositor e, portanto, o primeiro disco solo desse rapaz que é um dos artistas mais talentosos do circuito local, com direito a figurar como tal também no âmbito nacional. A carga emocional deste trabalho transborda desde a primeira faixa. Tem nas entrelinhas de canções carregadas de sentimentos, as cores de relações intensas, em escritos confessionais, que soam como acertos e erros de um romance que está no caminho para o fim, mas não sem deixar marcas fundas. Pianos, violões, trumpetes, teclados, guitarras, barulhos. Nada de mais, aparentemente, mas vai ouvir o resultado... Se nota ali algumas influências/referências de Ribeiro. Embora as letras sejam um dos pontos altos do trabalho, não é só elas que calam fundo, provocando até uma zonzeira pela força que mostram. As combinações instrumentais escolhidas por ele captam a tristeza das letras. Ao longo da existência de sua banda, Ribeiro construiu uma sonoridade peculiar na qual é possível identificar claramente o “som da Íris” - e é também a marca do Igor Ribeiro, que, no entanto, consegue em outros projetos se misturar mais aos parceiros. Na Íris, no entanto, parece estar a essência do artista inquieto que nunca fica satisfeito com o que fez. São timbres, arranjos instrumentais e vocais de cores sentimentais que servem de cama para letras pessoais e formam um conjunto de fazer doer o coração, äs vezes, de fazer pensar na vida, de fazer lembrar e sentir tudo de novo.Solidão, saudade, tristeza, busca, tentativa de (se) compreender, um tumulto de sensações que ficam entre o querer largar e não conseguir. Sentimentos que escapam desse álbum, lançado independente. Não é um disco fácil - é de uma beleza doída. Tem seus momentos pop, mas a densidade e tensões musicais dão o tom das 15 faixas.A primeira parte é a mais soturna do disco, com passagens intensas pelos machucados provocados pela vida, como “Meia Noite” (“Se Você acha que a gente deve seguir nossos destinos separados/ é melhor então deixar as lembranças de lado/ é melhor então deixar alguns sentimentos de lado/ Te reencontrei num quarto chorando sozinha/ num quarto escuro meia noite”).Ou “Tuas Mentiras” (“Eu te dei meu coração/você me disse não vale a pena/ Eu te dei meu coração/você me deu os teus problemas. Eu te dei meu coração/ você me disse não gosto de você/ como você gosta de mim/O Amor sempre tem fim”).Cortando as faixas com letra, estão outras igualmente belas, instrumentais. O disco de Ribeiro, que também toca na ESS, tem momentos pinkfloydianos, tem elementos eletrônicos e até uma desconstrução a la Gengivas Negras, mas na maior parte do tempo é Íris/Igor Ribeiro, até a medula. A partir de “O que é que Você vai Fazer”, parceria com Rubens K (Íris e Terminal Guadalupe) Insomnica parece a janela aberta em um dia bonito, para o até então clima sombrio predominante no disco. A partir daí, o álbum tem um som mais aberto, com cores mais pop que o deixam menos introspectivo. Entre estas, duas versões de “Certas Manhãs”, com vocal do Poléxia Rodrigo Lemos (“Lembra de certas manhãs, em que a vida, você eu/ ficavamos leves/ Depois no final da noite a gente se abraçava e tentava descobrir novas maneiras de ser feliz/A gente quase consegui/ foi por um triz”).

NÃO VOU MORRER NA MINHA KITCHENETE

O texto mais interessante sobre o que aconteceu nos últimos dias em SP saiu hoje na Folha. Taí. Mais uma vez o Mário disse tudo. assino embaixo. os caras só lembram da violência quando ela atinge a classe média ou quando acontece algum evento desse. no dia a dia, a bala come solta por aí e ninguém tá ligando. se quisessem mesmo resolver, já teriam feito. Acontece que como bem diz aquele ex-chefe de Polícia do RJ naquele documentário notícias de uma guerra particular, do João Salles, a classe média quer essa polícia (ou política, ou justiça) corrupta que está aí. Porque o dia que a polícia não for corrupta, e para de matar apenas pobre, preto e favelado, são os bacanas engravatados que vão ter que começar a dançar. e aí eles não vão querer. Por isso, as leis são feitas pra protegê-los. Pro resto, tem as armas.

O curioso é que o texto do Mário saiu justamente na página ao lado da que tem como destaque uma matéria intitulada "Está inaugurado o terror nos Jardins". Ou seja o problema, todo dia morre gente no Capão Redondo, mas neguinho que tá lá na Daslu não tá nem aí. Entenderam o que eu disse...


Não vou morrer na minha quitinete

MÁRIO BORTOLOTTO ESPECIAL PARA A FOLHA

A ordem agora é morrer nas próprias casas. Uma das frases que mais me marcaram nas últimas semanas foi justamente a frase dita por Sara Joanna Gould, uma americaninha de 21 anos que tá fazendo intercâmbio no Brasil. Ela falou pra Revista da Folha: "O que me surpreende não é a pobreza, comum na América Latina, mas sim a riqueza, o número de milionários em um país como o Brasil".Sacaram? Vocês que agora estão escondidos em suas casas, com medo de saírem às ruas pra tomar uma inocente cerveja ou pra ir a um cinema depois de um dia cansativo de trampo e pavor? Vocês sacaram que isso que vocês estão passando nesse momento é rotina nas favelas cariocas? O toque de recolher, o abaixar as portas, o rezar baixinho pra que ninguém ouça. Às vezes tão baixinho que nem Deus ouve.E a gente faz de conta que tá acontecendo longe daqui, num país distante de alguma fábula de terror. E agora você tá vendo os busões incendiados, as estações de metrô metralhadas, e você tá dentro do trem fantasma.E você pergunta pra mim o que eu penso disso? Eu não sou político, não faço parte de nenhuma igreja, não sou banqueiro nem empresário. Não lucro com nenhuma espécie de proibição. Mas tem gente lucrando, não tem? O pouco dinheiro que ganho trabalhando é pra pagar as contas e comprar livros. E você vem perguntar pra mim o que eu acho disso? Você acha que isso aí é só uma guerra de polícia e bandido?Faz a autópsia da situação, brother. Com atitudes meia-boca não vai acontecer nada de fato. Não vou gastar meus 1.600 toques com palavrório empolado. Libera tudo, meu irmão, divide o bolo, libera as drogas, a pirataria e a putaria, deixa todo mundo trabalhar livremente e ser o dono de suas próprias vidas.Oportunidade pra todo mundo melhorar de vida. Iguala as condições pra batata não assar. Mas é claro que isso não vai acontecer, não é? Então não perguntem pra mim o que acho disso. Nunca perguntem para alguém libertário como eu o que acho de algo assim. Você tá com a bunda no inferno e quer manter a dita refrigerada?Eu tô em casa, mas prefiro optar por não morrer aqui. Ainda posso fazer isso. Vou sair pra tomar uma cerveja. Se eu ainda tivesse um pai, arrastava ele comigo. Meu nome é Mário Bortolotto e não existe nada de que eu goste mais do que um pingado e um pão com manteiga depois de uma noite de sinuca.

Mário Bortolotto é dramaturgo, diretor de teatro e ator

5/10/2006

Essas recordações me aquecem

Meu sono me largou cedo hoje, nem tinha o dia clareado ainda e já estava eu abraçada com o travesseiro ouvindo o piar dos pássaros madrugueiros. Até lembrei de repente, dos tempos de pular ainda noite da cama pra abrir o bar, junto com minha doce e companheira vozinha. Éramos nós duas começando o dia no bar do ‘seu Perin’, o meu amado avô.
Posso me sentir lá outra vez, o cheiro da lenha começando a queimar no fogão, a chapa limpa, fumaça discreta fumegando; o calor começando a aquecer e se espalhando pela casa ao som de uma música caipira que saia do radinho de pilha ligado na tomada, sintonizado na rádio Coroado (que ainda ta lá, mas agora é FM, se não me engano) em cima da geladeira. Era uma cônsul vermelha a geladeira da casa onde cresci.
Dali a pouco o cheio do café é que tomaria conta, enquanto os primeiros ruídos dos caminhões chegando para levar o povo pras lavouras de alho (é difícil esquecer aquele cheiro – o do alho, to falando agora).
Eu já estava com a porta do bar aberta. Nem sempre era eu quem o abria, mas sempre que abri tive que controlar um certo medo do que havia depois da porta. Coisa de criança ter medo assim – mas desde pequena não me dei outra chance que não a de encara-lo. (Lembro muito bem, que via “fantasmas” no trajeto entre o bar e a cozinha de casa – eles eram juntos, mas se passava por um corredor entre um e outro. E eu me obrigava: vai lá e olha atrás da porta pra vê como num tem nada ali. Antes um pouco de abrir o bar pedia a proteção das ‘entidades do bem’, que foi como aprendi, de seu ‘destranca rua’ –quem sempre ganhava uns goles de pinga pra melhor cuidar da gente - do meu querido ‘preto velho’. Foi as bênçãos de algumas “entidades” que vivi a primeira etapa da minha vida).
Voltando ao café, o café com mistura ficava pra depois, antes era preciso preparar as marmitas de quem pegaria no batente sob o ar gelado em cima de uma caçamba, os bóia-frias, com suas cadernetas de contas anotadas. Eles levavam na bolsa café com leite, pão com salame, lembro bem.
O meu lanche favorito era o bauru, que minha vozinha fazia com pão de leite e queijo da roça (eu não tinha idéia de que é algo sofisticado com tantas variações!), feito direto na chapa do fogão a lenha, prensado por uma chaleira que sempre tinha água quente. Na mesma chapa que fazia um gostoso pinhão, deixando marcas do seu calor na casca e espalhando aquele cheiro que aqui no Paraná o povo também conhece muito bem.
O café para acompanhar vinha com graspa para esquentar o corpo pequeno que logo encararia o horário escolar subindo um imenso morro, não raras vezes, coberto pela geada que fazia deslizar de volta três passos em cada um que se conseguia dar.

Era mais ou menos assim que meus dias começavam e foi deles que senti saudades hoje, meio dormindo ainda. Quis outra vez minha Vó Ina ao meu lado ou me esperando na cozinha com seu avental e vestido florido, fazendo tudo por mim – inclusive não me deixando ver televisão. Ou levando uma porção de brasa num panelão para aquecer meus pés gelados desde criança, preu não ficar tão gelada no bar nos dias mais frios.
Fui de volta praquele quarto que dividia com eles, parede na parede do bar e o barulho dos homens jogando sinuca, ou cartas: pife ou canastra, não truco, que aquele povo era muito brabo e esse jogo era briga quase certa e as brigas lá eram sempre muito feias de se ver e eu vi algumas...
Essas recordações me matam, canta o Rei – e tantas vezes ouvi essa triste música pensando nisso tudo, depois que vim pra Curitiba. Mas, fazia tempo que elas não me acertavam assim. Claro que não dormi, pulei da cama e rabisquei algo parecido com o que você ta lendo. Mesmo agora, dois dias depois desse despertar, é impressionante, como tudo volta a tona, só que de manhã, no silêncio do dia que ainda não começou pra maioria, é tudo tão mais forte. E o mais incrível de tudo é a nitidez das sensações, das lembranças, dos cheiros, dos medos, dos barulhos, do amor e do carinho que recebi, e, principalmente, dessa saudade tão monstruosa que nunca mais vai passar.

Adri Perin

5/05/2006

Réquiem por um sonho alquebrado

Porque será que eu tenho que me sentir culpado por sonhar, acreditar no sonho e lutar por ele? Será que é pecado ter paixão por aquilo que se gosta e querer muito, e não só querer, mas vibrar por isso e sofrer quando as coisas não acontecem? Será que estou condenado a passar o resto da vida pedindo desculpas por querer fazer mais do que apenas esperar? É triste perceber que tudo aquilo em que você mais apostou não passa de uma miragem, um castelo de cartas que pode ruir na primeira brisa. E todas aquelas promessas e tapinhas nas costas não significavam nada. Estou cansado. Ficando velho e ranzinza. E acreditando cada vez menos. E sonhando cada vez menos. E sinto que o tempo está se esgotando. E que nada pode me salvar. Me sinto como aquela pessoa que está se afogando, e quanto mais se debate, mais afunda. Talvez tenha chegado a hora de fechar a porta, apagar a luz e ficar em silêncio. Mesmo que pra mim isso signifique algo parecido à morte. Mas quem se importa? Afinal, “ninguém sai vivo daqui” mesmo.